terça-feira, março 25, 2008

Um fa(c)to ó(p)timo?

Mas anda tudo louco? Os neurónios passaram por uma fase de hibernação? É que isto não tem ponta por onde se lhe pegue!
Não me considero uma reivindicadora muito activa ou uma partidária ferrenha, mas se houve coisa que fez borbulhar os meus genes contestatários foi o famoso Acordo Ortográfico - recentemente assinado.
Mas quem, no seu perfeito juízo, pode ratificar tamanha calamidade?! Desculpem, mas não consigo entender como puderam permitir que se desvirtuasse tanto a nossa língua portuguesa...
Bem vistas as coisas é o renegar da História! É o afogar de séculos de viagens, descobertas, conquistas, glórias... É degradar a nação que deu novos mundos ao mundo!
Queixamo-nos que daqui a pouco seremos mais espanhóis que portugueses; mas este acordo ortográfico não fará algo ainda pior? Transforma-nos em algo sem género, indefinido, uma ténue semelhança com o Brasil... Portugal: a província de Espanha que fala brasileiro!
Nunca os grandes autores da literatura portuguesa se agitaram tanto nos túmulos, nunca os livros pareceram sumir, encolhendo-se de vergonha nas estantes... O que fizeram os nossos políticos com as suas politiquices de fait-divers?! O que fizeram eles à nossa língua?
Que tristeza ver o português perder aquilo que o caracteriza! É roubar-lhe as origens, retirar-lhe a alma, despersonalizá-lo, adulterá-lo... Dou-te razão, Pessoa: é ver Portugal a entristecer...

sábado, outubro 27, 2007

Somos pessoas apenas por sermos pessoas

Quando começava a perder a esperança de que haveria alguém que pensasse que o mundo seria um lugar bem melhor se houvesse menos hipocrisia, eis que encontrei «uma luz ao fundo do túnel»!
Fui desencantá-lo no lugar onde o zé-povinho diz que se formam os hipócritas e mentirosos: a Faculdade de Direito (uma pequena salvaguarda: não que eu acredite que assim seja, mas enfim...). Eduardo Vera-Cruz é o seu nome; para além de outras funções, é o regente da cadeira de Direito Romano.
Cedo fiquei a gostar deste professor pelo seu diálogo simples e pela empatia que cria com os alunos. Mas a minha admiração cresceu, quando nos mostrou aquilo que era para ele o Direito.
«É fundamental ter a capacidade de dizer não às injustiças». Naquele momento, qualquer coisa dentro de mim se inflamou. Aquele professor acredita que é necessário parar com as desigualdades, pois a vida, como hoje a concebemos, não passa de um mero conviver com as injustiças. Sim, aquele professor catedrático, presidente do Conselho Directivo, personalidade influente no meio jurídico. Sim, também aquele homem acreditava nisso - e não somente uma simples caloira como eu!
Segundo as suas palavras (desculpe professor por ter tomado notícia do que disse...), o curso de Direito dá potencialidades para tudo; nós depois é que escolhemos o caminho a seguir. E isto não se aplica somente a um curso universitário, mas a toda a nossa vida: são postas à nossa disposição os instrumentos, cada um de nós em seguida opta sobre o que quer fazer com eles.
O bem e o mal somos nós que, na nossa liberdade, o praticamos, não é algo inerente nas coisas.
Nunca antes tinha feito referência tão explícita a uma pessoa no meu blog, mas alguém que diga «nós somos pessoas com dignidade e direitos, apenas por existirmos» de certeza que merece tal referência...

sábado, outubro 20, 2007

Raios te partam Darwin!

É importante começar por frisar que não tenho nada contra o grande naturalista que foi Charles Darwin, nem contra a sua mais celebre obra «A Origem das Espécies pela Selecção Natural». Pode-se dizer que é a interpretação que as pessoas fazem de selecção natural que me causa formigueiro.

Sobrevivência do mais forte!

Ora aqui está o cerne da questão! Generalizou-se, na nossa sociedade, que para se sobreviver temos de ser mais fortes que o nosso parceiro. No entanto, este ser "mais forte" vem conotado com o célebre passar por cima de quem se atravessar no nosso caminho sem olhar a meios (nem a fins...).

A lei da selva, vulgo lei da sociedade, manda que para sobreviver sejamos hipócritas, que chutemos para canto os sentimentos dos outros e que coloquemos o nosso proveito em cima de um pedestal luminoso, bem polido. «Magoei o não-sei-quantos? Problema dele!», «Achas que fui sacaninha? É a vidinha, meu amigo!».

Não pensem que estou aqui a defender que sejamos uns totós, que passemos a actuar tendo apenas por objectivo os interesses alheios. Não! Não sou ingénua a esse ponto. Mas haverá mesmo necessidade de, para vingar na vida, sermos uns verdadeiros canalhas?

Não seria possível encontrar um meio termo entre o nosso próprio proveito e o bem-estar do outro? Uma pitada mais de sensibilidade: seria pedir muito?
Por vezes, penso que se Darwin não tivesse escrito que os mais fortes é que sobrevivem, não teríamos chegado a este ponto.


terça-feira, setembro 18, 2007

Seria dos meus olhos?

A vila era a mesma de tantos Verões; a rua não havia mudado; a hora do dia era igual a tantas outras.
Eu reconhecia a rua: sabia perfeitamente onde me encontrava. Já tinha feito aquile caminho tantas vezes, tanto num sentido como no outro. À primeira vista, tudo permanecia na ordem imutável de há vários anos: a casa azul, seguida da amarela e depois aquela pequenina das janelas brancas.
Mas, naquele dia, havia algo de diferente. As casas e as fachadas antigas, que tantas vezes me haviam acompanhado nos passeios até à praia, despertavam a minha atenção. Parecia que nesse momento os meus olhos descobriam novos recantos, pormenores que até então me tinham passado despercebidos.
Sentia que as próprias casas se abriam para mim, mostrando os seus pequenos segredos. Era como se cada uma delas me dissesse: «Repara como a cor das nossas paredes se encaixa perfeitamente na arquitectura da casa. Olha para esta açoteia que se abre para um pedaço de paraíso escondido». Ao demorar os meus olhos pela rua e contemplá-la no seu todo, senti que emanava uma beleza nunca antes vista.
E pensar que toda aquela magia tinha estado sempre ali, mesmo à minha frente.

terça-feira, agosto 14, 2007

A tristeza da sala de espera

Numa sala de espera de um centro de saúde qualquer, a felicidade parece ter fugido pela porta de entrada lá para fora onde o sol brilha.
Aqui dentro é sempre Outono: velhotes passeiam as suas dores apoiados na bengala, mães preocupadas roem as unhas pensando no dia de trabalho que estão a perder, crianças impacientam-se  nos bancos... todos suspiram «quem me dera não estar aqui...»
Nos filmes, as salas de espera são sempre bonitas, alvas, cheias de luz, transpirando tranquilidade.
Aqui não. Aqui há o branco lascado das paredes, o castanho desbotado dos rodapés, o verde acinzetado do chão; as janelas estão fechadas (para não deixar entrar o sol ou para não deixar sair a tristeza?)
Podiamos acalentar a esperança de que o médico lhes tirasse as dores, que as suas nuvens cinzentas saissem daqui tal qual o céu numa fresca manhã de Verão. Mas saem daqui tal qual entraram.
Porquê?
Talvez não precisem do médico de família, mas sim de um médico da alma...