quarta-feira, maio 02, 2007

Quero viver noutra época!

A afirmação pode parecer estranha, mas há uns dias atrás, enquanto estudava História, não houve desejo maior do que este...
Já por várias vezes pensei o bom que seria ser possível realizar viagens temporais e reviver uma época anterior à nossa. Já imaginaram? Ser-nos dada a possibilidade de escolher o momento da História do qual queríamos fazer parte?
Mas voltando à questão principal: naquela altura fui arrebatada por uma forte vontade de desaparecer do Portugal de 2007 e "mudar-me" de malas e bagagens para 1974 (o ano da revolução do 25 de Abril), ou para 1755 (época do Marquês de Pombal), para os Descobrimentos, para a Revolução Francesa,... sei lá tantos sítios e épocas em que eu aceitaria de bom grado viver! Tudo menos o agora!
Podem acusar-me de viver no passado, porém não é isso que se passa: simplesmente me sinto desiludida com o presente. E quando passo em revisão tantos momentos gloriosos, lindos, em que as pessoas lutavam pelos seus ideais, usavam a razão em busca de algo melhor, debatiam-se para acabar com as injustiças, sabiam unir-se em nome de uma causa, fico com uma vontade enorme de me mudar!
Desculpem-me, mas acho que nos afundámos! Virámos as costas uns aos outros, só nos interessa é vermos os nossos desejos realizados e se para isso tivermos de "abater" quem se atravesse no nosso caminho, "cá vai disto"... Tornámos-nos em seres (ainda humanos?) que tiram prazer de maltratar o outro, em ser mesquinhos, hipócritas, falsos! Para onde quer que olhemos só vimos corrupção, trapaça, "chico-espertismo".
Desculpem-me mas NÃO GOSTO! Sinceramente tenho fortes dúvidas se, caso fosse necessário, ainda saberíamos fazer um "25 de Abril". E os Descobrimentos? Ainda teríamos aquela garra para dar "novos mundos ao mundo"?
Como dizia Pessoa: «é ver Portugal a entristecer»...

sábado, março 10, 2007

PAREM!

Nem acreditei quando vi! A data da última postagem feita neste blog era de 31 de Janeiro... que vergonha. Poderia tentar arranjar inúmeras justificações ou até escudar-me no imenso trabalho da escola... Mas não é isso que interessa e o que me trouxe aqui foi outro assunto, a meu ver, bem mais interessante.
Uma série de acontecimentos - o estudo da guerra colonial na disciplina de História, o filme recentemente estreado nos cinemas "Diamante de Sangue", o filme "Lord of War" - levaram-me a reflectir seriamente (talvez pela primeira vez) sobre a guerra em África.
Esta é, para mim, uma das faces mais marcantes e incompreensíveis (se é que alguma vez se pode compreender algo na guerra) dos confrontos bélicos.
Os povos africanos nascem, vivem e morrem na pobreza; sem um sentido de unidade e nacionalidade que os ligue. E são os chamados movimentos de libertação que tentam alterar esta realidade, lutando pela independência.
Contudo, as palavras do meu livro de História vão ao centro da questão: «Frequentemente, estes movimentos têm dificuldade em promover a coesão e a participação das populações, divididas por uma multiplicidade de etnias que os interesses do colonialismo não respeitaram. Com o fim de criarem um sentimento de identidade nacional e de fazerem reviver o orgulho perdido, os líderes nacionalistas promovem a revalorização das raízes ancestrais do seu povo, a sua cultura comum...». Tudo isto parece muito belo e virtuoso mas o problema é as deturpações que estes ideais sofreram na realidade.
Comecemos pelo plano de luta: na maioria das vezes estes movimentos optam pela via das armas para verem cumpridos os seus objectivos, dando início a intermináveis e sangrentos confrontos. Mas ainda agora começámos a enumerar... Outra coisa que "não me entra na cabeça" é o facto de muitos destes movimentos enveredarem por autenticas chacinas (desculpem, mas não têm outro nome) de aldeias, vilas, povos, somente porque não pertencem à sua tribo! Acusam os países ocidentais de etnocêntricos e isto é o quê senão etnocentrismo puro! Que legitimidade têm eles para, em nome de uma suposta coesão e tradição ancestral, tirar a vida a crianças, mulheres, idosos e homens, que o único "mal" que fizeram foi nascerem num local diferente dos que têm as armas...
E agora sim, o que realmente me revolta: os "senhores do dinheiro" financiarem estes movimentos, não porque acreditem nas suas convicções, mas sim porque estas guerrilhas e instabilidades governativas são óptimas para a sua exploração de petróleo, ouro e diamantes... Sinceramente entristece-me que consigam dormir descansados, sabendo que o "fornecimento" enviado vai matar bebés, deixar crianças orfãs, separar famílias e deixar outros tantos seres humanos sem um braço, perna ou outro qualquer parte do corpo... Desculpem-me mas COMO PODEM TER A CONSCIÊNCIA LIMPA???? Não compreendo, não aceito, não entendo...

Quem somos nós afinal? Como conseguimos viver indiferentes nos nossos jactos privados, limusinas, ao mesmo tempo que num país não tão longínquo mães gritam desesperadas segurando os filhos mutilados nos braços?

Por favor, somos TODOS seres humanos! Acabem com isto! Mostrem que somos mais do que simples animais com a capacidade se saber utilizar telemóveis...

Aconselho-vos a ver os filmes "Shooting Dogs", "Diamante de Sangue" e "Lord of War". Vejam-nos e depois digam-me se conseguem permanecer calados...

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Tudo por um pastel...

Sentei-me no silêncio da sala, fechei os olhos por um pouco... Desde ontem que aquela entrada no tal blog não me saía da cabeça: seria a realidade mesmo assim? A vida seria tão cruel que um pobre mendigo, após uma semana inteira a juntar dinheiro (uns míseros - dizemos "nós" - 0,80€) para poder dar um conforto à alma e ao corpo e comprar um simples pastel de Belém com direito ao "pack" completo de canela e açúcar, veria o sonho tão próximo de se realizar, desfazer-se em fracções de segundo por um safanão que lhe deitou o pastel ao chão? Seria a vida tão injusta que, mesmo estando o mendigo disposto a apanhar do chão o seu doce (havia já passado por coisas piores), um descuidado pé esborracharia certeiramente aquele creme amarelo ainda quente...
Não, não podia ser! Era o autor do texto que estava a ser cruel (afinal era uma história inventada, apesar de todos os pormenores realistas).
Porquê? Porque não haveria aquele homem de ter o seu breve momento de reconforto? Quantas pessoas só encontram felicidade e conforto com a realização de necessidades vazias, fúteis, e aquele pobre homem só pedia um pequeno doce - que cabe tão bem na palma de uma mão - para esquecer as dores do estômago (que tantas vezes havia passado fome) e da mente.
Comentei a minha indignação. Responderam-me: «Tu não estás habituada a esta realidade, pois não? Não sabes como são os vagabundos de Lisboa? Eu visualizei claramente a cena descrita por ele, enquanto lia!»
Mais perguntas invadiram a minha já tão confusa cabeça: Estaria eu envolta numa redoma, longe desta realidade, longe da verdadeira realidade?! Seria a Lisboa que eu tanto admiro, assim mesmo? Cheia da pobres pedintes, fitando com os olhos brilhantes - por vezes molhados em lágrimas - as montras gulosas e apetecíveis das pastelarias? Pior! Seria a minha magnética Lisboa, a minha sociedade, o mundo de que faço parte, um local onde os que têm muito podem realizar os seus mais fúteis caprichos e aqueles "pobres diabos" (porquê chamá-los de "diabos"?) que só desejam algo tão pequeno vêm o seu "paliativo" esmagado?
Custa-me tanto a admitir que a verdade seja esta, fere-me como se fosse eu mesma aquele mendigo vendo o "meu" pastel desfeito no chão brilhante acabado de lavar e os bolsos vazios de dinheiro para poder comprar outro...
Mas talvez eu também seja um desses superficiais, egoístas, fúteis, que perante uma mão estendida viram a cara e, até!, murmuram entre dentes um resmungo. Afinal que fiz eu para mudar isto? Escrevi um post?! Não vai de certeza devolver o doce ao mendigo ou dar-lhe mais um cobertor nesta noite fria...
Uma lágrima amargurada aparece. Quem me dera que fosse diferente... Quem me dera que ao menos por uma vez os mendigos tivessem o seu pastel...

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Standing for...

Passado tanto tempo sem dar notícias no blog, voltei para escrever sobre um assunto que há algum tempo me tem andado no pensamento. Acho o tema interessante, mas não sei ( ainda!) como o desenvolver, vamos deixar a "pena correr" e ver no que dá...
Ando por aqui às voltas, às voltas e ainda não disse qual é o tema mistério... Pois bem, é a Organização Nações Unidas!
Surpreendidos?! Talvez seja melhor eu explicar o "porquê".
Uma das coisas que sempre me fascinou foi a capacidade humanitária dos seres humanos, a sua luta (muitas vezes constante) pela defesa dos direitos humanos. Toda a nossa História é povoada de episódios sobre a defesa dos direitos e a luta das sociedades por condições de vida dignas. Assumindo várias formas, a luta pelos direitos é algo permanente: seja na luta pela independência de um país, seja no combate pelo direito ao voto das mulheres, seja pelo direito das crianças ao acesso à educação, seja o que for.
Não sei qual é a vossa opinião, mas eu vejo isto como algo valioso no ser humano, a sua capacidade/coragem para lutar por aquilo que considera ser justo.
É neste contexto, e após duas guerras mundiais, que cerca de 51 países decidiram unir-se para criar um Organização que assegurasse a paz e a ordem mundial e que promovesse relações de solidariedade entre nações "pequenas e grandes". Nesta organização todos têm os mesmos direitos e estão em pé de igual (não há mais ou menos poderosos, todos têm o direito a ser ouvidos).
Independentemente do que outros possam pensar, eu acredito nesta Organização (e num futuro profissional sentir-me-ia bastante realizada se aí pudesse trabalhar) e é nela que reside a minha esperança de que o mundo avançará para ser um lugar melhor e mais justo. Não sou tão inocente ao ponto de achar que basta existir um organização como esta ou até que as Nações Unidas são completamente livres de desigualdade, mas o fundamento está lá, a esperança, a vontade reside nesta instituição.
Somos uma ínfima gota deste planeta azul, mas o nosso pouco esforço, pode ajudar a mudar ou a melhorar a vida de alguém que realmente necessite. Eu acredito que sou uma simples abelhinha nesta profusão de vida, mas também acredito que posso dar o meu contributo (por mais pequeno que seja) para tornar a colmeia um sitio com mais "mel"...
Por Favor! Não deixem de acreditar no lado humanitário da sociedade! Lutem por aquilo em que acreditam!

terça-feira, janeiro 02, 2007

É a Hora!

Um coincidir de situações levaram a que eu escrevesse este post.
Estive a ler a crónica de Daniel Sampaio, «Carta-aberta à geração dos meus filhos», publicada inicialmente a 22 de Outubro de 2006 no jornal A Capital, sobre a necessidade de um segundo 25 de Abril, de uma revolução sem-sangue que tire o país deste descambar sem fim à vista; quis o destino também que, a propósito do meu anterior post, relembrasse o último poema da Mensagem de Fernando Pessoa: Nevoeiro. A ser aplicado ao actual estado do nosso Portugal, estes versos adequam-se na perfeição.

«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugalm hoje és nevoeiro...

É a Hora!»

As palavras tornam-se vazias após lermos este poema. Como pode Pessoa quase um século antes dos nossos dias escrever palavras tão acertadas, tão verdadeiras, tão mortalmente reais!?
Por mais que custe a admitir, a realidade é esta: Portugal está a entristecer, é «brilho sem luz», «incerto», «derradeiro» e «disperso». Nós não passamos de nevoeiro, sombras que apenas passam, levantando poeira (leia-se, atirando poeira para os olhos de quem quer, finjindo que nos preocupamos, que queremos mudar, que somos lutadores e estamos descontentes). Podemos reinvindicar, protestar, apontar o dedo aos governos, às autoridades, à comunicação social, fazer greves (tão em voga ultimamente), mas a verdade é que, lá no fundo, o problema está em nós, portugueses, em nós Nação. Chegámos ao extremo de não «saber que coisa se quer», «que alma se tem»; já nem sabemos «o que é mal nem o que é bem».
Devo dizer que chego a ficar assustada ao ver que nos estamos a afundar, ao aperceber-me que pessoas como o Daniel Sampaio têm razão ao escrever que «falharemos no construir de uma sociedade melhor para os nossos filhos». Temos de mudar e acredito que o conseguiremos: tudo se baseia em força de vontade - querer é poder! Só espero que quando nos resolvermos a agir ainda possamos mudar o rumo das coisas sem sofrimento, violência e "sangue".
Como Pessoa tanto gostava de dizer: É a hora! (só falta o D. Sebastião a guiar-nos...)